Sou vegetariana por amor aos animais

Sou vegetariana por amor aos animais
COLHER OU MATAR, a escolha é sua
"Se os matadouros tivessem paredes de vidro
todos seriam vegetarianos."

(Paul e Linda Mc Cartney)



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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Exercício para fazer com os olhos

(vejam o olhar de sofrimento de quem sabe que vai ser abatido...
e abatido para quê? para satisfazer humanos que poderiam muito bem estar ingerindo perfumosas frutas, legumes, grãos e verduras)

Exercício para fazer com os olhos
Fernanda Franco

Uma semente não vira uma árvore grande de repente, assim como tornar-se vegetariano não é algo que se dá de uma hora para outra. Ninguém acorda e simplesmente decide: a partir de agora serei vegetariano.

Por trás de toda mudança (verdadeira e sólida), existe uma mobilização interna na forma como compreendemos e sentimos as coisas. E essa evolução se dá conforme vamos tomando contato com o que vive em tudo, com a verdadeira natureza dos acontecimentos, com o que realmente existe e importa.

Pensando nisso, eu gostaria de propor aqui um exercício para fazer com os olhos. Quero fazer um convite desprovido de qualquer intenção de mudança. Quero apenas compartilhar com quem me lê os efeitos da experiência de olhar e ver.

A experiência simples de olhar nos olhos

Empatia é quando acessamos o que o outro está sentindo. É quando experimentamos na pele, por meio desse acesso, o que se passa no outro, e conseguimos compreender exatamente como o outro se sente.

Com o tempo, fomos minimizando nossa capacidade de empatia por conta da distância. Talvez tenha sido uma forma de nos protegermos do sofrimento que nos acomete quando passamos a saber de algumas coisas dolorosas. Porque saber é conhecer. E se eu conheço a dor que é ser torturado para virar casaco de pele, por exemplo, eu não vou querer isso para o outro. Nem para um humano, nem para um animal: a dor existe para os dois.

Acontece algo dentro da gente, depois que vemos ou presenciamos o sofrimento de um ser. No caso dos animais que são retirados de seus habitats, de sua vida natural, para serem confinados e depois serem abatidos para o consumo humano, tudo isso se dá por trás de paredes espessas, e dentro de lugares bem distantes das nossas casas. Dos nossos ouvidos, dos nossos olhos, dos nossos filhos. E ai de quem quiser nos mostrar algum vídeo que revela essa triste e dolorosa realidade: “apelação”, respondemos sem pestanejar.

Pelo contrário: mostrar uma verdade que querem esconder de nós nunca é uma “apelação”. Ora, se precisamos saber de algumas coisas, e isso só se dá pelos olhos (por conta da distância convenientemente estabelecida entre a origem das coisas e o que consumimos) então precisamos ver. Enquanto não sabemos, precisamos ver.

Pensemos: por que será que não existe um abatedouro no centro das cidades, ali perto da igrejinha? Se o consumo de carne é algo tão dentro das diretrizes divinas e que respeita os direitos fundamentais de todos os seres, por que escondemos dos nossos olhos a origem do que comemos? Será que é porque não suportaríamos ver nem ouvir o sofrimento de um animal agonizando antes de ser abatido? Será que é porque não suportaríamos perceber que fazemos parte desse grande erro cometido contra seres indefesos, à medida em que consumimos sofrimento? Será que é porque não queremos nos abrir para a consciência que nos leva à mudança?

O exercício de olhar é um exercício também de coragem. E foi justamente esse exercício que me deu a capacidade de ver o que antes eu não via. Não via porque nunca tinha me permitido antes olhar e acessar a dor dos animais que são explorados pelo homem, em especial os que são criados e confinados para o consumo humano. O máximo que eu conhecia até então era a dor de um animal abandonado na calçada, passando fome, frio e tristeza.

O meu “exercício para fazer com os olhos” foi quando me recomendaram assistir ao documentário “A carne é fraca”. O filme começa com muitas informações e depoimentos, e vai avançando o olhar para dentro da triste realidade escondida nos abatedouros. Ter permanecido o meu olhar nos olhos de um animal segundos antes de seu suspiro final, a caminho do abate, mudou tudo para mim. Bastou para que eu não mais consumisse carne. Ninguém me convenceu de nada: eu experimentei a dor daquele olhar mudo de morte e convivo com ele todos os dias, sempre que vejo um pedaço de carne no supermercado, na propaganda da televisão, no cardápio de um restaurante.

Eu me tornei vegetariana justamente e imediatamente depois de experimentar a dor desse animal morrendo. Eu acessei um silêncio triste de morte e a comoção que aquilo me causou fechou um ciclo na minha vida: eu não mais olharia para um pedaço de carne sem enxergar aqueles olhos tristes de morte.

Ver um animal sofrendo ou morrendo por escolha do ser humano talvez signifique para você a gota d’água para uma mudança. Mas não necessariamente: a gota d’água é a água que transborda. Mas só transborda porque o copo já estava cheio.

Independentemente do compromisso de vivenciar qualquer tipo de mudança, olhe nos olhos da vida. Se uma experiência foi significativa para mim não significa que reverberará da mesma forma nas outras pessoas, em você. Mas uma coisa é certa: o exercício de olhar nos olhos é um convite à alma, e a escolha de mudar é de cada um. Transbordar é consequência do que a alma consegue enxergar.



"No homem e no animal, a dor é igual"

José Franson

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