Ivana Maria França de Negri
Nos bancos escolares, pelo menos na
minha época, aprendíamos que o boi era um animal útil. Isso porque nos dava sua
carne, seu leite, couro, chifres, ossos, tudo nele era aproveitado. E nos
ensinavam que os animais se dividiam em duas categorias: a dos animais úteis e
a dos nocivos.
Geralmente os que se enquadravam na
categoria dos nocivos eram as formigas, pulgas, carrapatos, baratas, as cobras
peçonhentas e os que transmitiam doenças aos humanos ou eram considerados
pragas.
Alguns animais eram denominados de
simpáticos, como os cães, gatos e pássaros, mas outros eram considerados
asquerosos, como os morcegos e os ratos.
Adulta, comecei a questionar esses
conceitos. A vaca não doa sua carne, seu couro, seu chifre por livre e
espontânea vontade, tudo dela é arrancado. Ela gostaria de viver em paz. Roubam-lhe a vida para usufruir
de suas entranhas, até seu bebê é arrebatado de sua companhia para virar
vitela, uma carne mais macia que os humanos adoram, mas causa muito sofrimento
ao bezerrinho.
Também nunca compreendi porque alguns
animais eram desprezados e considerados nocivos. Por que Deus criaria animais
imprestáveis para infernizar a vida do homem? O Criador certamente tem um
objetivo para cada ser vivo. Todos têm sua importância na cadeia da vida.
Nenhum pode ser considerado inútil, apenas na visão torpe, ignorante e egoísta
dos humanos.
Cada ser vivo, mesmo o mais ínfimo dos
insetos, tem seu lugar e sua serventia na natureza. Nunca entendi essa
supervalorização de algumas espécies em detrimento de outras. Isso se chama
especismo.
Por conta disso, o homem delegou a
algumas espécies o destino de serem usados para diversão, (rodeios, circos,
touradas, farra-do-boi, rinhas), outras, são para aprisionar (em jaulas,
zoológicos, circos e em gaiolas) e o pior, alguns são presos para serem usados
em seguidos experimentos científicos, uma das mais cruéis destinações a que são
submetidos os animais. E há também o absurdo de serem utilizados em rituais,
degolados e sangrados sem piedade para suposto benefício de quem os executa.
E de acordo com essas divisões, que ele mesmo
criou, o homem sente-se no direito de usar, abusar, matar, caçar, espalhar
pesticidas e venenos. Como em cada país mudam os costumes, alguns consomem
carne de cachorro, de gato e macaco e os ocidentais ficam chocados. Na índia a
vaca é sagrada e eles se horrorizam com os ocidentais que as matam, quando na
verdade, todas as formas de matança e sofrimento são deploráveis, em qualquer
escala.
O ser humano é o único ser que assassina
os de sua espécie e de outras, sem propósito algum como nas caçadas por
esporte.
Bois, cavalos, cães, gatos e outros
bichos são usados para virar comida, diversão, maltratados na vivissecção ou no
trabalho forçado.
E o homem cria mil designações: animais
domésticos, domesticados, selvagens, silvestres, quando na verdade, são
espécies de vida diferentes, que sentem dor, fome, sede, são carentes de
carinho como o próprio ser humano.
Ainda bem que existe a escalada da
evolução. Entre erros e acertos, entre dores e alegrias, o homem vai aprendendo
com as lições que a vida dá. E aprende mais pela dor do que pela felicidade. Um
dia a utopia de um mundo de paz e harmonia vai se tornar real. E a humanidade
será formada por uma legião de anjos. Isso seria o paraíso! Por ora, vamos nos
arrastando, levando as reguadas da professora Vida.