Sou vegetariana por amor aos animais

Sou vegetariana por amor aos animais
COLHER OU MATAR, a escolha é sua
"Se os matadouros tivessem paredes de vidro
todos seriam vegetarianos."

(Paul e Linda Mc Cartney)



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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

IMAGEM - Crônica de remorsos por não ter socorrido um gatinho...


IMAGEM
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Cecília Meireles
(Coleção Melhores Crônicas)
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O gato apareceu de repente na montanha. Era um pobre bichinho débil, que miava silêncio. Preto, parecia cinzento – de tão sujo. E, além de sujo, maltratado, com um olho desfazendo-se em gelatina, e uma orelha empapada de sangue. Olhou para mim tristemente, como nós às vezes olhamos para Deus . E eu, certamente, queria ajudá-lo .
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Mas então vi como aquele caminho deserto se fazia subitamente povoado; o espírito das superstições dizia-me : “olha que é um gato preto!” E o espírito da ciência murmurava-me : “Está cheio de parasitas, que te infestarão !” E esse vil espírito prático da era contemporânea aparteava : “Ademais, como podes ajudar, se estas num caminho deserto e sem recursos, onde não se avista nem um teto nem um veículo?” E só o espírito do amor segredava tímido: “Toma-o nas mãos e leva-o contigo ! Verás que, no teu colo, seus olhinhos lacrimosos se fecharão, adormecidos; sua fome se esquecerá, suas feridas fecharão ...” Mas o espírito do amor segreda com tanta timidez!
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Pela montanha deserta, descíamos os dois, e subia o vento.Pobre gatinho preto, de cauda arrepiada como uma escova de lavar frascos ! Manquejava também de um pé. Tão ralo tinha o pêlo que se lhe viam luzir as pulgas sobre os arcos das costelas. Na orelha machucada, o sangue secara-lhe como uma florzinha vermelha, muito escura.
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Tão grande era a sua urgência de socorro, que, embora trôpego, pequenino, doente, às vezes caminhava mais depressa do que eu. Ia esperar –me adiante, e levantava para os meus os seus olhos sofredores e o vazio miado, que era, a cada instante, como o seu último sopro.
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Mas, quando me via chegar, punha de lado a sua fadiga e o seu descanso, e recomeçava o caminho, com uma espécie de fé sempre renovada de peregrino que se dirige ao lugar da salvação .
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Na montanha , porém, não havia salvação nenhuma para quem padecesse de fome ou sede. A assembléia dos espíritos que me rodeavam buscavam pôr-se de acordo, sem satisfação: as pulgas eram inegáveis – dizia o espírito científico; o da superstição contradizia-se , de tão rico: às vezes os gatos pretos dão sorte ...; o espírito prático, o vil espírito de tempo, mostrava-me com uma clareza de relatório oficial que gasolina não existia, e a primeira venda devia estar, tanto para uma lado, como para o outro, a um bom quilômetro, pelo menos. Só o espírito do amor segredava que tudo isso eram conjecturas idiotas, e que devia tomar nas mãos o pobre bichinho abandonado e leva-lo sobre o calor do meu peito até um lugar qualquer onde o sentisse , afinal, protegido e consolado .
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E o gatinho trotava, ora atrás de mim, ora na minha frente. Parecia impossível que pudesse pular assim, tão magrinho, tão seco, tão altimoso. Mas pulava . Se não fosse o aspecto que tinha, dir-se-ia que brincava, que brincava como uma cavalinho caprichoso num circo de elfos. Umas duas vezes prendeu a perna no ralo da sarjeta. Daí em diante, fez-se mais cauteloso, evitando-as, quando as encontrava . E tudo isso dava graça à companhia, como quando se descobrem as novidades de uma criança. Mal, porém, se reparava no seu esqueleto no ofego de seu tórax, e naquela umidade de seus olhinhos nublados, vinha um aperto ao coração – eo grande céu , a verde floresta, o ouro do Sol derramando-se pela estrada, o mundo e as criaturas tornavam-se enigmáticos, ferozes e inúteis .
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O espírito do amor segredava-me, cada vez mais tímido : “Vê como tem acompanha. Como poderás dormir tranquila sem teres socorrido o miserável que pediu o teu auxílio?” E o espírito da superstição murmurava: “Isto é para que não te esqueças que deixaste de ser caridosa, um dia. Aqui anda uma aviso do ultramundo, sob a forma de um gato preto !” E o espírito científico replicava com uma insolência de dezoito anos: “Qual ultramundo ! Isto é apenas um gato sem casa, maltratado pelo vadios, e que vai atrás de ti por instinto, procurando alimento e sossego” . E o tal espírito prático se arreliava :”Onde estão os hospitais, para os bichanos que ninguém quer? Que há de fazer uma pessoa num caso destes? As pulgas estão ali, evidentes; a gasolina positivamente não está em lugar nenhum . Ninguém pode andar sempre com um sanduíche no bolso e uma garrafa de leite embaixo do braço .... E ainda esta carga de preconceitos morais ! ...” O espírito do amor segredava entristecido : “Não deixes teu coração endurecer com o que estás ouvindo ... Faze alguma coisa por este pobre animal que te segue arquejante. Lembra-te se algum dia fosse atrás de alguma coisa que fugisse, fugisse.... Reflete que algum dia poderás ir ...” E volvia o espírito científico: “Mas um gato, afinal de contas, não é gente. E o sofrimento do amor suavemente insistia ; “Tudo é um sofrimento só, de alto a baixo, na criação . Compadece-te desse que te acompanha, pequena coisa que o destino pôs no teu caminho, problema que o mundo inteiro está vendo como resolverá ...”
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Então, ao meio dos espírito sentei-me. E o gato parou diante de mim, com a hirta cauda par ao lado, uma orelhinha murcha, e outra em pé. Seus olhos chorosos não tinham voz humana : puro choro. E sua boca pálida arreganhou-se num miado sem som: piro bocejo. Aquietou-se mirando-me. E agora um velhinho muito velho, e malhado em lã cinzenta, lacrimejando de velhice e de experiência. Observava-me , sem dizer mais nada, sem pedir nada. Sua sombra não media um palmo; minha sombra não mediu um metro. A sombra das árvores era imensa e balançava-se no chão, misturando estrelinhas de ouro. Trinavam pássaros, algo e longe. A montanha subia, subia . Quanto caminho andado! E aquele pobre bichinho descera-o todo atrás de mim, tão magrinho, tão infeliz, alternando as perninhas trôpegas , e chamando-me com sua voz desaparecida .
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Por que não nascem entre as pedras arroios de leite par aos gatinhos abandonados? Ah! Irmão Francisco, os lírios andam vestidos de seda, e os passarinhos por toda a parte encontram grão que os sustente, mas os gatinhos, bem vês, não tem rato que se distraiam e o transeunte humano nem o poder socorrer nem explicar .
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Passará talvez um leiteiro com algum carrinho. Vai batendo uma sineta melodiosa como um anúncio de festa. E eu lhe direi: vende-me meio litro de leite para esse bichinho abandonado... E o leiteiro será como um pastor antigo, que sobe para a sua serra onde tem ovelhas peludas e mansas, e me dará leite e queijinhos brancos e tenros, que todos comeremos à sombra das árvores, numa intimidade casta de écloga. O gatinho se lamberá todo com uma língua novinha, rósea que nem coral, e sorrirá agradecendo, e terá forças para trincar aquelas pulgas que passam como miçangas pelas suas costelas, e depois, limpo e refeito, brincará, para vermos, de pegar a sua sombra, de saltar ao tronco das árvores ou de morder a ponta da sua própria cauda.
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E o leiteiro dirá: “Ide , senhora, que o levo comigo, para entreter os meninos da minha granja. “ E as árvores se inclinarão, cheias de pássaros e flores, e o gatinho irá pulando serra acima, enquanto o leiteiro, pra o divertir, cantará uma cantiga engraçada sobre a vida das ratazanas ...
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Mas o leiteiro não aparecia. Pensei que ele acabasse por adormecer ali sentado, pois seus olhos ficavam cada vez mais pegajosos e seu focinho de ancião freqüuntador de arquivos tomava um ar cada vez mais resignado e desistido. E eu lhe dizia: “meu amigo, não sei qual é a venda mais longe: se a lá de cima, se a lá de baixo... Como vais resistir a caminhar mais do dobro do que até aqui andaste?"
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E o espírito do amor implorava: “Toma-o no teu colo!” E lembrei-me da amiga que apanhou um gatinho assim à porta do cinema e levou-o para a casa de chá, escandalizando todas as senhoras enchapeladas que comiam sem fome, carregadas de balangandãs. E os espelhos em redor viram descer para o gatinho um doce das mil e uma noites, pura nata e massa folhada, onde a fome do desgraçado se perdia num delírio de suavidades brancas, num êxtase de manteiga e baunilha .
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Mas nenhum pássaro trouxe no bico o milagre necessário ao gatinho preto. De nenhuma árvore caiu esse milagre suspirado. Pedras, Sol, troncos, formigas. Nem água! – nem água brilhava em nenhuma rocha, nem se deixava ao menos ouvir no segredo das folhas ou das areias .
Então, o gatinho veio tocar-me os pés com humildade. Isto é o que mais me custa lembrar: a meiguice com que inclinava a cabecinha doente nos meus sapatos, como a perguntar-lhes: “Por que pararam? Levem-me a algum lugar! Não vêem que estou tão precisado, tão mortinho de sede e fome?”
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E levantei-me e recomecei a andar – triste pelo gatinho como pela infelicidade de um povo ou de um parente. E sem esperança de nada . E fui andando. E ele atrás de mim. E fazia cabriolas. E queria andar tão depressa, que até atrapalhava as quatro perninhas. E ia de olhos no chão, disciplinado, com um ar de funcionário submisso, mas de repente virara menino travesso, e dava pulinhos, logo perdia as forças e levantava a cabeça com boca suplicante e olhos dissolvidos.
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Nessa altura é que nos aconteceu uma coisa extraordinária: vinha subindo a montanha uma pessoa. E o pobre bichinho, que devia estar zonzo de canseira, confundiu os pés que subiam com os que desciam, e passou a acompanhar o transeunte inesperado.
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Veio-me então a saudade de perdê-lo. E a melancolia de lhe não ter dado nenhuma ajuda. Perguntei aos espíritos que me cercavam o que devia fazer. E um deles – não sei qual – me respondeu que talvez fosse melhor deixá-lo com o seu destino. (Devia ser o espírito prático, que é o mais covarde ...) E arrazoava: o passante podia levar consigo o sanduíche que me faltava... (Mas o espírito do amor, esse eu bem sei que ia chorando, dentro de mim, desconvencido e inconsolável.)
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E agora tenho a lembrança da montanha, poderosa, bela, virente, e, em seu flanco, a imagem do gatinho triste, como coisa para toda a vida.
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Primeiro, pensei que aquilo era apenas uma aventura curiosa, que esqueceria ao chegar à cidade .E aprecia estar esquecido. Mas esta noite sonhei com ele. Sonhei com o gatinho que já deve ter morrido, que morreu certamente àquela tarde mesma. E disse para a sua imagem: “Mas eu te amei antes de morreres ...” Depois, achei a frase idiota. Nem ao menos original. Parecia a última fala de Otelo.
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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O leite de Clemência

Pintura “Milk”, da artista vegana Dana Ellyn

David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O leite de clemência


” Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz”

Eugênio já não amarrava mais a corda no pescoço de Filomena, porque há mais de um ano ela sabia o que precisava ser feito. Sempre que o galo cantava sobre uma guarita que antes serviu como morada para um João-de-Barro, ela se levantava e caminhava em direção à porteira do pequeno curral.Como fazia todos os dias, Eugênio acordou bem cedo no sábado para ordenhar Filomena, uma vaca baixinha que aprendeu, por força do tempo, a aceitar o seu próprio destino – servir como fonte de renda para um produtor rural.
Ficava imóvel, com olhos baixos e orelhas deitadas, às vezes esfregando suavemente os cascos na terra, esperando a chegada do patrão. Eugênio sabia que era hora da ordenha, não apenas por causa da balbúrdia do galo, mas também porque o sino no pescoço de Filomena revelava que ela estava pronta para o serviço.
“Bora tirar esse leite das tetas, Filó!”, dizia Eugênio diariamente e sorridente, sem titubear. A vaca não reagia. Só vez ou outra que emitia gemido prolongado e langoroso que ninguém entendia, nem Marcolino, o único médico veterinário do povoado. “Deve ser falta de algum nutriente. Vamos incrementar a alimentação dela”, sugeriu numa manhã árida de chão tão tracejado que quem via de longe pensava que estava diante de um mapa.
Um dia, Filomena parou de produzir leite e ninguém entendeu o motivo. Ela era considerada um dos animais mais saudáveis e invejados da colônia, ajudando a garantir não apenas o sustento da família de Eugênio, como também a alimentação de seus dois filhos.
— Que diabos eu vou fazer agora?
— Chame Seu Marcolino de novo, pai…
— Ah! Mas já faz mais de uma semana que a danada não dá nem uma caneca de leite, e o mais estranho de tudo é que ela tá com as tetas cheias.
— Chame o homem, pai! Ele vai saber o que fazer.
— Não sei se compensa, o tratamento deve ser caro.
— Não custa ver se vale a pena.
Seguindo a recomendação do filho, Eugênio chamou Marcolino. Ao contrário do que ele imaginava, o homem disse que não havia nada que pudesse ser feito, a não ser esperar. “Essa vaca é saudável. Não tem problema nenhum. Deve ser só teimosia, só que uma teimosia que nunca vi igual. Geniosa essa vaca, mais do que o senhor”, ironizou o veterinário às gargalhadas.
Na segunda semana, Filomena não permitiu que nenhuma gota fosse extraída de seus úberes. Simplesmente não saía nada durante a tentativa de ordenha. Quando Eugênio massageava o volume, ele berrava enraivecido ao sentir o leite no interior do animal. Estava fora do alcance do seu balde de lata.
— Eu que te criei, sua lazarenta. Como você faz isso comigo?
— Só não te bato aqui agora por consideração – ameaçou com a mão direita levantada em posição de golpe.
A vaca inclinou a cabeça em direção ao solo arenoso e ignorou a ameaça, como se entendesse, embora não se importasse. Ela parou de produzir leite quando seu último filho desapareceu, vendido para um matadouro onde foi reduzido à carne de vitela. Eugênio não queria o bezerro disputando o leite que “deveria ser somente dele e de seus filhos”.
— Eu que alimento a infeliz, então tudo que ela oferece me pertence.
Na terceira semana, o galo não cantou e Filomena não se levantou. Encolerizado, Eugênio correu até o galo e o derrubou de cima da guarita com um tapa certeiro nas ventas. O bicho se apressou em direção aos pinheirais e, miúdo, desapareceu sob o matagal.
Depois foi a vez de Filomena ser punida. Ele amarrou uma corda no pescoço da vaca e tentou arrastá-la para o centro do curral. Ela resistiu. Não queria sair de jeito nenhum. Com a ajuda dos dois filhos, Eugênio a deitou sobre a areia branca e pediu que Matias, o mais velho, buscasse um machado pendurado no fundo do celeiro.
O rapaz correu e voltou empunhando a ferramenta. Quando Eugênio ameaçou dar o primeiro golpe, a vaca gemeu e se contorceu na terra, levantando, com os cascos, uma cortina tão densa de poeira que ele e os filhos engasgaram. Logo a vaca cansou, e a poeira se dissipou. Havia sangue no chão, colorindo os riscos no solo, que ganhavam formas de vasos sanguíneos. Tão opaco quanto vívido, o líquido vermelho jorrava das tetas de Filomena.
Com o corpo exalando odor acre de terra e sangue, ela observou assustada os três. Mesmo com olhos fumegantes e muita vontade de extravasar a fúria que o dominava, Eugênio desistiu de matá-la naquele dia. Entrou em casa acompanhado dos dois filhos que não ousaram dizer palavra. “Se ela não der leite nos próximos dias, a gente mata”, avisou com voz oca e pertinaz. Matias e Mateus balançaram a cabeça em concordância, sem arriscar comentário.
Ao anoitecer, João dos Cascos, um dos primeiros sitiantes do Noroeste do Paraná, visitou a família e perguntou se Eugênio não queria vender Filomena. Ofereceu inclusive a sua propriedade, sua única fonte de renda, em troca da vaca. Achando aquilo um absurdo, Eugênio declinou a proposta.
— Não sei qual é a sua intenção com essa oferta descabida, mas saiba que Filomena não está à venda. É herança de família.
— O senhor me perdoe a intromissão. É que preciso de uma vaca como a sua.
— Essa tá doente e não vai ter serventia nenhuma pro senhor.
— Não tem problema. Me viro do meu jeito.
— Não adianta, não quero e não vou vender. Retire-se! Vá daqui!
Na quarta semana, assim que Eugênio acordou, ele viu através da janela o galo cantando. Filomena mantinha a cabeça escorada em uma das tábuas da porteira, e o sininho vibrava preso ao pescoço. Diante de suas patas, havia três baldes de leite, um leite diferente, singular, como ninguém daquela casa jamais experimentou.
— Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz. Me perdoe por tudo que fiz. Por favor, aceite minhas desculpas.
A vaca não reagiu. Somente o observou, recuou e deitou em um canto onde o sol matutino aquecia uma porção de sua pele branca como o leite que Eugênio consumiu. Por três anos, todos os dias no mesmo horário, Eugênio, Matias ou Mateus recolheram os três baldes de leite. Até que noutra manhã, Filomena não levantou e o galo não cantou. Não havia leite nem balde. Só um animal que parecia preparado para encarar o destino. “Sem leite sem vida”.
Antes do pôr do sol, Eugênio retornou com o machado. Absorto em ódio, cuspiu um naco de fumo em um pedaço de pasto e ignorou tudo à sua volta, mirando uma vaca teimosa “que já não merecia viver, não merecia sua compaixão”. Rodeou o animal e fez um círculo no chão com a lâmina, demarcando a área do abate. Antecipando o primeiro golpe, Filomena fechou os olhos e deitou a cabeça na grama, alongando o pescoço, talvez prevendo a própria decapitação. Eugênio estava tão furioso que, com mãos trêmulas, errou o primeiro golpe.
No mesmo instante, um rapaz bateu palmas na entrada do sítio, alegando que tinha uma entrega. Eugênio se aproximou com olhar suspeitoso e cumprimentou o jovem que se apresentou como Bernardo.
— Vim trazer uma carta ditada pelo meu pai João dos Cascos e uma garrafa de leite. Ele faleceu ontem, mas antes me fez prometer que eu viria visitá-lo.
Bernardo abriu a garrafa, tirou um copinho da mochila e insistiu que o homem experimentasse.
— É coisa boa, o senhor não se preocupe.
Eugênio tomou tudo em um gole. Assustado e boquiaberto, deixou o copinho cair de sua mão, se chocando contra o chão.
— Onde você conseguiu isso?
— Meu pai que inventou. É leite de clemência. Uma receita familiar. Não vem de bicho nenhum, vem da santidade da natureza que da gente exige muito pouco. O senhor gostou?
— Sim…é muito bom.
Quando abriu a carta, Eugênio viu que havia uma receita com todos os detalhes do preparo do leite de clemência, além de algumas observações e um pedido:
— Durante três anos, o senhor achou que seus filhos estavam ordenhando a Filomena, e eles pensavam o mesmo do senhor. E nenhum de vocês percebeu que aquele leite não era de vaca. O senhor sabe por que? Porque vocês precisavam do leite de clemência mais do que daquilo que julgavam mais importante. O que parecia essencial era somente distração. E aquele, meu senhor, era o único leite que todo ser humano deveria beber. Não, ele não é igual ao leite de vaca. É bem diferente. E quando pensamos que sim, é porque já não somos quem éramos. Sei também que o senhor se desfez de quase todos os animais de seu sítio, mantendo somente o galo e a vaca Filomena, que um dia ganhou de sua esposa, e em quem o senhor projetou a sua desilusão quando foi abandonado por sua mulher. Saiba que aquela a quem chama ‘carinhosamente’ de Filó, assim como todos os animais, tem sua própria vida e dor. Ou o senhor pensou na vaca quando mandou os filhos dela para o matadouro? Como exigir que um animal não reaja diante do sofrimento dos seus? Eles não falam, mas seus corpos sim. Diante disso, faço-lhe duas sugestões. Que o senhor aceite minha receita e liberte Filomena ou devolva a carta ao meu filho e entregue-se aos enganosos prazeres da soberba.
Eugênio levantou os olhos, deu uma olhadela em Filomena e mirou seriamente Bernardo. Sem dizer nada, caminhou até o curral com olhos marejados e balbuciou:
— Que um dia você me perdoe, ou não, porque aquele que vive para si mesmo pode ser que não viva para mais ninguém.
Amuada em um canto, Filó se levantou e seguiu em direção a Bernardo, acompanhada pelo galo. Quando a porteira se abriu, o último desejo se cumpriu.

terça-feira, 31 de julho de 2018

O HOMEM E O BOI



            Um anjo de longínquo sistema, interessado em conhecer os variados  aspectos e graus da razão na  inteligência Universal, pousou num  campo  terrestre e, surpreso ante a paisagem, aí encontrou um homem e um boi. 
             Admirou as flores silvestres, fixou os horizontes coloridos de sol e rejubilou-se com a passagem do vento brando, rendendo graças ao Supremo Senhor. Como não dispunha, todavia, de mais larga parcela de tempo, passou à observação direta dos seres que povoavam o solo, aferindo o progresso do entendimento no orbe que visitava.             Examinou as pupilas do homem e descobriu a inquietação da maldade. Sondou os olhos do boi e encontrou calma e paz. Usando o critério que lhe era  particular, conclui de si para consigo que o boi era superior ao homem. Consolidou a impressão quando, para experimentar, pediu mentalmente aos dois trabalhassem em silêncio. O animal respondeu  com perfeição, movimentando- se,  humilde, mas o companheiro bípede gritou, espetacularmente, proferindo nomes feios que fariam  corar uma pedra. 
             Um tanto alarmado, o anjo recomendou paciência. O educado bisneto da selva continuou trabalhando, imperturbável e tolerante. Todavia, o irrequieto descendente de Adão estalou um chicote, ferindo as ancas do colaborador de quatro patas. Acabrunhado agora, diante da cena triste, o sublime embaixador pediu atitudes de sacrifício. O servo bovino obedeceu, sem qualquer relutância, revelando indiscutível interesse em ser útil, distraído das próprias chagas. O administrador humano, contudo, redobrou a crueldade, recorrendo ao ferrão para dilacerar lhe, ainda mais, a carne sanguinolenta. ..       
          Sensibilizadíssimo, o fiscal celeste anotou o que supôs  conveniente aos fins que o traziam e afastou-se, preocupado. Não atravessara grande distância e encontrou uma vaca em laço forte, com outro homem a ordenhá-la. Sob   impressão indefinível, emitiu apelos à renúncia. A mãe bovina atendeu com resignação heróica, prosseguindo firme na posição de quem sabia sacrificar-se,  mas o ordenhador, antes que o emissário de cima os analisasse, de perto, porque certa mosca lhe fustigava o nariz, esbofeteou o úbere da vaca, desabafando- se. O funcionário dos altos céus,  compadecido, acariciou a vítima que se movimentou alguns centímetros,  agradavelmente sensibilizada. O tratador, porém, berrou desvairado, caluniando-a.
             - Queres escoicear-me, não é? - gritou, diabólico. Ergueu-se lesto, deu alguns passos, sacou de bengala rústica e esbordoou-lhe os chifres. Emocionado, o anjo vivificou as energias da vaca, aplicando o seu magnetismo divino, rogou para ela as bênçãos do Altíssimo, empregou forças de coação no agressor, conferindo-lhe salutar dor de cabeça, efetuou os registros que desejava e retirou-se. 
            Prestes a desferir voo, firmamento a fora, encontrou um gênio sublime da hierarquia terrena. Cumprimentaram- se, fraternos, e o fiscal divino comentou a beleza da paisagem. Não ocultou, porém, a surpresa de que se possuía. Relacionou os objetivos que o obrigaram a parar alguns minutos na Terra e rematou para o irmão na pureza e na virtude: - Estou satisfeito com a elevação sentimental das criaturas superiores do Planeta. Cultivam a generosidade, renunciam no momento oportuno, trabalham sem lamentações e, sobretudo, auxiliam, com invulgar serenidade, os inferiores. O anjo da ordem terrestre silenciou, espantado por ouvir tão rasgado elogio aos homens. O outro, no entanto, prosseguiu: - Tive ocasião de presenciar comovedores testemunhos. 
            Pesa-me confessá-lo, porém: não posso concordar com a posição dos seres mais nobres da terra, que se movimentam ainda sobre quatro pés, quando certo animal feroz, que os acompanha, agressivo, já detém a leveza do bípede. Naturalmente, sabe o Altíssimo o motivo pelo qual individualidades tão distintas aqui se encontram, unidas para a evolução em comum... Tenho, contudo, o propósito de apresentar um relatório minucioso às autoridades divinas, a fim de modificarmos o quadro reinante. Assinalando- lhe os conceitos, o companheiro solicitou explicações mais claras.
            O anjo estrangeiro convidou-o a verificações diretas. O protetor da Terra, desapontado, esclareceu, por sua vez, ser diversa a situação: o bípede é na crosta Planetária o Rei da inteligência, guardando consigo a láurea da compreensão, sendo o boi simples candidato ao raciocínio, absolutamente entregue ao livre-arbítrio do controlador do solo. Acentuou que, não obstante operoso e humilde, o cooperador bovino gastava a existência servindo para o bem, e acabava dando os costados no matadouro, para que os homens lhe comessem as vísceras... O forasteiro dos céus mais altos, sem  dissimular o assombro, considerou: - Então, o problema é muito pior...
            Pensou, pensou e aduziu:
            -  Jamais encontrei um planeta onde a razão estivesse tão degradada. Despediu-se do colega, preparou o afastamento definitivo sem mais delonga e concluiu:
            - Apresentarei relatório diferente. Mas ainda não se sabe se o anjo foi pedir medidas ao Trono Eterno para que os bois levantem as patas dianteiras, de modo a copiarem o passo de um herói humano, ou foi rogar providências aos Poderes Celestiais a fim de que os homens desçam as mãos e andem de quatro, à maneira dos bois...


(De "Luz acima", de Francisco Cândido Xavier - Irmão X) 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Cortejo



Lídia Sendin

Risca o rosto do peão
Esse vento que fustiga,
Sol a pino, estradão,
Tange o boi pela campina.

Não há onça, nem leão,
Mas o medo o castiga,
Tanta vida e solidão
No silêncio uma cantiga.

Chora a alma, o corpo briga,
Mas não há outra opção.
O cortejo assim avança,
Vai a res pro matadouro
E com chicote de seu couro,
Estalando em suas ancas
Não recebe compaixão...

terça-feira, 13 de março de 2018

Para reflexão




Ao olhar para os animais abandonados nas ruas, vi em seus olhos muito amor e esperança por uma vida melhor, além do medo, horror e tristeza porque se sentiam traídos como se não vivessem na mesma sociedade onde todos podem ter um abraço e o carinho de um amigo... 
Ao olhar o pavor nos olhos dos animais que sofriam com as experiências terríveis em laboratórios...
Ao ver o sofrimento atroz dos animais na indústria da carne,  confinados e mutilados, para que sua carne se transformasse em alimento para os humanos ...
Ao ver animais sendo caçados...
Ao ver animais sendo explorados em carroças ou espetáculos que os torturavam...

Eu, então, me revoltei e rezei:

- “Deus, tudo isso é horrível! Por que o Senhor não faz nada a respeito?” - 

E Deus me respondeu: 

-"Eu fiz. Eu criei você"...

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Carrocinha Fatal


Lino Vitti
           
Tristonha, assustadora, barulhenta,
Como um monstro de sonhos do passado,               
Eis surge a carrocinha  que atormenta
A vida do cãozinho abandonado.

Chicote, laço, rede em  cor cinzenta,
Homens rudes, de rosto amargurado,
Correm, gritam, bravejam e o cão, coitado,
Gane, chora e fugir da rede tenta.

Como pode existir tão desumano,
Gesto  tão condenável, tão insano,   
 Gerador  de tão tétrica  maldade?

Como pode  de um  cão o ingrato dono
Deixá-lo  na desgraça, no abandono,
Ao léu da dor, de insólita orfandade?

sábado, 26 de setembro de 2015

AS MARIAS DO RODOANEL



AS MARIAS
SERIA A ÚLTIMA VIAGEM
O EPÍLOGO DA GRANDE DOR
DA CARRETA DA AGONIA
PARA A SALA DO HORROR
A CARGA VIVA, ABARROTADA
OLHOS DE SÚPLICA E DE MEDO
POIS NESSE FILME, O EGOÍSMO
ESCREVE EM SANGUE O ENREDO
VIDAS VIVIDAS SEM AFETO
COISIFICADAS SEM PUDOR
PRA HUMANIDADE ENTORPECIDA
SE ALIMENTAR DE DESAMOR
MAS, NO ”SEM PARAR”, PAROU
SEM QUERER TOMBAR, TOMBOU
GRITOS, DESESPERO, MORTE
ALERTA, AUXÍLIO, SORTE
E OS GRITOS ECOARAM
O DESESPERO COMOVEU
E A CARGA CONDENADA À MORTE
DA ESTRADA FRIA RENASCEU
GUERREIROS FEITOS DE AMOR
SURGIRAM PRONTOS PARA A AÇÃO
AS MÃOS DE LUZ ESTAVAM ÁVIDAS
POR SE ARMAR DE COMPAIXÃO
VIMOS, ENFIM, A GUERRA SANTA
DUM LADO, A TRISTE TRADIÇÃO
DO OUTRO, A CHAMA DO FUTURO
QUE PRENUNCIA A EVOLUÇÃO
E O GRITO ECOOU
NA ALMA “SURDA”, QUE CHOROU
E O OLHAR CEGO DE VERDADE
VIU O QUE É REALIDADE
HÁ UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL
E POR QUEM NÃO SOBREVIVEU
NA MORTE EM CENA TÃO MARCANTE
O EGO FRIO SE COMOVEU
É A NATUREZA REAGINDO
SIM, HOUVE PERDAS, HOUVE DANOS
MAS O MILAGRE DA TRAGEDIA
REVELOU HOMENS HUMANOS
SUAVE SOPRO DE ESPERANÇA
E O DITO TÃO CONVENCIONAL
“ESCREVE DEUS POR LINHAS TORTAS”
NUNCA MOSTROU-SE TÃO REAL
NO BARRO, AGORA, CHAFURDA A ALEGRIA
DO OLHAR QUE, ENFIM, CONTEMPLA O DIA
E O SOL AQUECE LÁ DO CÉU
NOSSAS MARIAS DO RODOANEL

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Cecil, o leão

Ele vivia em paz com seu bando nas savanas de uma reserva do Zimbábue. Belo, altivo, majestoso, fazendo jus à designação de Rei das Selvas. Tinha treze anos e era monitorado por estudiosos que trabalham pela preservação da espécie.
Na semana passada Cecil teve seu nome e sua história conhecidos através dos meios de comunicação, e principalmente  nas redes sociais do mundo todo, pelo feito de um dentista americano que pagou centenas de dólares para caçá-lo em seu santuário. Agindo sordidamente, atraiu o felino para fora da reserva, feriu-o com uma flecha, deixando o pobre animal agonizar por mais de quarenta horas quando então, fraco pela perda de sangue, foi abatido covardemente a tiros. O caçador e seus comparsas arrancaram-lhe a cabeça ali mesmo, pois costumam usá-las como troféus.
O mundo deplorou esse ato, e por mais que o dentista se justificasse dizendo que não sabia que o animal era monitorado e fazia parte de estudos, ninguém acreditou, pois se não soubesse que era protegido, não o teria atraído antes para fora da reserva.
Assisti a uma entrevista onde um caçador profissional afirmava que sentia um prazer indescritível quando abatia um animal. E fico imaginando que raio de prazer é esse de matar, tirar vidas, de se deleitar ao retirar a cabeça do bicho recém abatido e levá-la ainda ensanguentada para casa. Para mim isso é um sério desvio comportamental que deveria ser tratado como doença e não incentivado. Mas acontece que onde entra muita grana, a ética e o bom senso vão para o espaço.
Na teoria existem leis que delimitam onde a caça “esportiva” pode acontecer. Mas na prática, os muitos dólares pagos aos guias, compram o direito de matar mesmo dentro das reservas. Um turista caçador paga em média 30 mil dólares para abater grandes animais – cerca de 100 mil reais.
A justiça nesse caso do leão, já foi feita. Vimos na TV pessoas da cidade do caçador Palmer dizerem que não conheciam esse lado dele e deixariam de ser seus clientes. E  um dentista sem clientes não terá mais dinheiro para patrocinar caçadas.
Ao mesmo tempo que rolava a comoção pelas redes sociais, e abaixo assinados com milhares de assinaturas pediam punição, um site religioso postava imagens de terroristas degolando prisioneiros de olhos vendados com os dizeres: “não faz diferença, eles não são leões, mesmo”. Um absurdo, pois uma causa não exclui a outra. Todas as causas são importantes para um mundo de paz e justiça. Não se defende uma bandeira desfazendo outra.
É preciso pensar grande. Nesse caso, Cecil virou símbolo da luta pela preservação das espécies, contra os caçadores (legais ou ilegais). Assim como há que se combater bravamente o terrorismo,  um mal que precisa ser extirpado pela raiz.
É preciso mais amor e menos violência. O mundo precisa de paz, de justiça, de compaixão, fraternidade e principalmente, de união.
Somos todos Cecil.

Ivana Maria França de Negri - escritora



sábado, 4 de outubro de 2014

Se os animais pudessem falar...



Carta aberta ao Homem
   Ivana Maria França de Negri

Não temos voz, não temos vez, a nós só resta aceitar calados nossa sina milenar.
No dia de hoje, uma boa fada tornou real nosso desejo de obtermos, mesmo que por breve momento, o dom humano de falar e de nos expressarmos através da escrita, para contar o que vai na nossa alma – temos alma, sim, um pouco mais rudimentar, mas temos!
Tudo começou como descrevem as Sagradas Escrituras. No princípio Deus criou o céu, a terra, a luz, os astros, as águas, toda exuberância do verde, e viu que tudo era bom. Depois, colocou nesse paraíso encantado, animais e humanos, moldando estes últimos à sua imagem e semelhança, ordenando que vivêssemos em harmonia. Somos, humanos e animais, feitos igualmente de carne, ossos, sangue, temos um coração que pulsa na mesma cadência, um corpo que sente dores e um cérebro pensante.
Com o passar do tempo, vocês, homens, foram dominando as outras criaturas com as quais dividem o planeta, declarando-se os verdadeiros donos de tudo. Para provar sua superioridade, passaram a se alimentar de nossa carne, beber o leite destinado aos nossos filhos, a arrancar nossa pele, ossos, couro, dentes e também obrigou-nos a usar nossa força natural para trabalhar para vocês. Nunca nos rebelamos, ao contrario, aceitamos esse destino cruel em troca de alimento e da sua companhia.
Só que ainda não era o bastante. Vocês passaram a nos escravizar, maltratar e a utilizar nossos corpos em macabros rituais e em dolorosas experiências nos seus laboratórios, em nome da ciência. Um instinto sádico aflorou na raça humana, que passou a aprisionar em gaiolas as aves canoras e elas nunca mais puderam usar as asas. Inventaram torturas o que denominaram de esporte e diversão, mas para nós é motivo de sofrimento e dor: caça, pesca, tourada, rodeio, vaquejada, circo, briga de cães, rinha de galos. Saibam que não gostamos de brigar, mas vocês nos treinam para isso.
Nossa vida não vale quase nada para vocês. Não nos devotam nenhum respeito, mesmo sabendo que sem nós, a espécie humana seria extinta.
Ah sim, existem alguns humanos especiais, que nos amam e respeitam, e a esses somos muito gratos. Eles nos defendem e até criaram alguns direitos para nós. Mas são discriminados pelos outros que os chamam de tolos defensores de desprezíveis irracionais.
Só que o mundinho de vocês, ao invés de melhorar, está cada vez pior. Há brigas e disputas em jogos sujos e violentos. Surgem milhares de inventos a cada ano, aparelhos eletrônicos, máquinas sofisticadas que fazem de tudo e trabalham por vocês. Conquistaram até o espaço, mas ainda não conseguiram ter paz e nem sentir a verdadeira felicidade. Tudo tem um preço, e o deus que cultuam e buscam pela vida toda, até morrem por ele, tem o esquisito nome de “dinheiro”. Seus corações se embrutecem cada dia mais. Se entopem de nicotina, de drogas, de bebidas e nada os satisfaz. A fome, dor e miséria dos outros não incomodam vocês. Entorpecidos, na selva de concreto e plástico que criaram, cercados de grades e cadeados, parecem zumbis. O medo e a violência imperam. 
Perdoem-nos, mas na nossa ignorância animal, sentimos que a felicidade está nas coisas simples que vocês foram esquecendo ao longo da sua evolução na terra. E seus olhos ambiciosos já não mais enxergam um nascer do sol, a beleza das flores e nem sentem o seu inebriante perfume. Não vêem o brilho da lua e das estrelas e não se contaminam com a alegria das crianças. Acham tudo isso perda de tempo e vão extinguindo diversas espécies de animais, derrubando árvores, poluindo as águas que ainda restam límpidas e, principalmente, vão se esquecendo do verdadeiro significado do verbo amar.
E a paz só brota no coração de quem ama.
Nós, irracionais, não precisamos do seu deus de papel, e sim do Deus que vocês esqueceram.             Por isso, apesar de tudo, somos mais felizes que vocês. Talvez seja esse o grande segredo e o caminho da sonhada paz que os homens tanto procuram... Assinado: Os animais.


Oração dos Animais

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Olhos de um porco - Poesia

(Poema de autoria desconhecida)

Profundas águas azuis
Tão vastos são os mares da tristeza
Eles nunca viram misericórdia
E nunca verão o amanhã.
Freneticamente procurando
Por um pingo de alívio
Do tormento contínuo
E luto perpétuo.
Eles perfuram meu coração
E secam todo o meu sangue
Olhos quase-humanos me assombram
Me perguntando: por quê?
Implorando por bondade
Algo que lembre generosidade
Uma contemplação doce e cheia de esperança
Em cada rosto inocente.

Ofereço-lhes água
Um golpe no focinho
Eles silenciosamente questionam
Se eu vou deixá-los sair
Seus sentidos são intensificados
Cada som, cada novo cheiro
Uma vez que por todas as suas vidas
Foram trancados dentro do inferno.

Eles são prometidos através de lágrimas
Como quase partidos
Eu vou continuar a luta
Mudando mentes, tocando corações
Seus belos azuis
Vão se tornar uma voz clara
Implorando por favor
Faça a escolha da compaixão.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O agradecimento dos animais pelo Natal ...



Esqueça o oba-oba das lojas, os empurrões no trânsito e a expectativa de folga, bebida e comilança. Somente o olhar dos animais não humanos é verdadeiro, dentre o furacão que os engole com mais força, no final de cada ano. Os animais da pecuária encaram o fim de suas vidas – ‘eles nasceram para isso’ – enquanto contemplam o traseiro de um clone seu, nos bretes e corredores de concreto que antecedem a mesa farta preparada com tanto esmero pelas famílias de bom coração.
O olhar de quem não sabe chorar, já que a reza na hora do desespero é exclusividade na lista da racionalidade – essa qualidade que separa a humanidade das bestas-feras. O olhar de quem viu o filhote ser puxado para longe de si pelos funcionários da fazenda, esse lugar bucólico onde os animais são tratados como reis, já que optaram por isso em troca de suas liberdades.
O olhar do frango que está encaixotado, empilhado em um caminhão que passa na nossa frente quando estamos na estrada, rumo às férias. Perdemos um segundo, apenas, pensando nisso. Não há espaço para que ele nos dê um tchauzinho, talvez agradecendo pelo doce toque da morte que o aliviará e abreviará sua existência marcada pela ausência de mãe, confinamento, horários alterados para ditar o ritmo da engorda e opressão no dia a dia.
‘Obrigado, Papai Noel ou menino Jesus, por me tirar de um aviário com outras milhares de aves. Obrigado pela ração e água que mantiveram este corpo vivo, pois ele vale pelo preço que alguém paga. Não tem o valor que minha mãe, animal como eu, instintivamente perceberia, e por isso me defenderia, em condições normais. Aqui sou um entre milhares, e não parece fazer muita diferença se eu morrer agora ou esperar o caminhão dos caixotes. Nasci de uma máquina de ovos, mas espero encontrar minha mãe, ciscando a meu lado, algum dia.
Obrigado, Deus humano, pela corrente que sempre existiu em torno do meu pescoço, que não me permite caminhar até o horizonte. Ou até o ponto onde há sombra, onde a água da chuva não está empoçada. Agradeço pelos dias que lembraram da minha existência, e sobras de comida chegaram até onde esta corrente permitiu alcançar. Obrigado, Papai Noel, por ter sido escolhido como animal de estimação por uma família de humanos.
Obrigado, espírito natalino, por eu ter puxado tanta carroça em meio à fumaça de óleo diesel, fraco, assustado e sedento, que enfim eu tombei no asfalto. A última surra que tomei do carroceiro, para que eu me levantasse, permitiu que enfim meu espírito pudesse cavalgar livre naquelas campos verdes onde quadrúpedes iguais a mim, porém belos e com longas crinas, correm sentindo o vento da natureza. Acho que o esforço que fiz diariamente para tirar meu condutor da miséria, ou pelo menos diminuir sua pobreza, foi menos do que eu poderia, entao eu aceito meu castigo.
Obrigado, família do presépio, por eu ter sido o escolhido para, ainda bebê, estar na mesa de tantas residências, para ter meu pequeno corpo saboreado em uma bonita bandeja, assado e servido à meia-noite. Ainda não entendi por que nasci e morri tão rápido, se fiz algo errado a ponto de não poder crescer um pouco mais em um lugar que, onde vi, havia outros como eu, alguns bem gordos. Mal lembro da minha mãe, mas lembro que ela não podia se virar, cercada em um gradeado enquanto mamávamos. Talvez tenha sido azar, talvez tenha sido sorte.
Obrigado, meu Deus, por eu poder ajudar tanta gente a usar um xampu que não irrite os olhos, uma maquiagem que não cause problemas, um produto qualquer a ser dado de presente neste Natal, que nunca vou saber direito, que atendeu os humanos em suas expectativas mais simples. Estive em um laboratório, cercado de pessoas de jaleco branco, durante tempo suficiente para saber que sou parte importante do progresso, que a Ciência evoluiu graças à minha dor, meu aprisionamento e tudo aquilo que os produtos geraram nos meus olhos e no meu corpo. Fico grato por ter ajudado.
Obrigado, Maria, mãe de todas as mães que, zelosas como eu, dão leite a seus filhos durante anos, mesmo após o fim de sua amamentação natural. Minha vida neste estábulo, com úberes gigantes e doloridos, plugados em uma máquina, é o sacrifício que faço para a saúde humana. Não percebi, ainda, em minha mentalidade abaixo da humana, porque o leite de meus filhos vai para os filhos de outra espécie, e até quando já são adultos. Meu filhote não está mais ao alcance de minha vista, foi retirado cedo de meu lado, mas sei que o papel dele, como vitelo, ocupa espaço de respeito junto aos humanos. É alvo de muitos comentários e elogios. Pelo menos é o que imagino, pois o sacrifício é doloroso o suficiente para, respeitosamente, ousar questionar o porquê de minha existência. Mas agradeço mesmo assim, Papai Noel.
Obrigado pelas palmas cada vez que apareço no picadeiro. O olhar das crianças me faz esquecer a minha vida de tédio e imobilidade, viajando de cidade a cidade. Quem sabe um dia eu e os demais animais cheguemos ao lugar de onde viemos, que deverá ter muitas árvores, rios e espaços para correr. Enquanto isso, eu repito as manobras noite após noite, mostro os mesmos truques que, pela minha teimosia, eu custei a decorar. Quem sabe neste Natal eu ganhe uma última viagem, de volta ao habitat que jamais conheci em vida.
Obrigado, Natal, por eu poder aquecer tanta gente elegante em momentos de frio. Nasci peludo tal como minha mãe, e como ela pude participar da indústria humana, essa coisa que traz tanto progresso, dando de bom grado minha própria pele para que maridos mostrem afeto à esposa, presenteando-as com belos casacos. Muita gente famosa e rica usa a pele que pode ter sido minha. Isso me enche de orgulho e faz valer o tempo que morei em uma gaiola pouco maior que meu próprio corpo. Já estava cansado de andar em círculos, lembrando dos bosques que um dia corri de cima a baixo. Mas um dia veio a dor que, por pior que tenha sido, me libertou finalmente. Ainda relutei alguns minutos, já sem pele, mas vi que a liberdade me abraçava e escurecia minhas vistas. Acho que valeu a pena, pois sou fotografado e até apareço na televisão, durante o inverno – pelo menos acredito que aquelas partes sejam minhas, cobrindo o corpo de pessoas tão bonitas e famosas. Obrigado aos responsáveis.
Obrigado a todos que vieram me assistir nesta arena. Ainda estou zonzo e ofuscado pela luz após dias de escuridão, mas já entendi que, aqui, eu sou a atração. Há um semelhante a mim, porém sem chifres e mais magro, e nele está montado um humano, com roupas garbosas e armas tão afiadas como as que já furaram tantos iguais a mim. Eu espero que tudo isto termine logo, pois o cansaço está vencendo a euforia, há tanto sangue que já não sei se é meu ou de alguém antes de mim, e está difícil fazer levantar a plateia tantas vezes. Que a morte venha me tocar com a mesma doçura da última vez que fui tocado pela minha mãe. Ela deve estar orgulhosa de um filho que resistiu até o fim, cercado de espadas, aplaudido, sangrando ajoelhado, língua de fora mas fazendo questão de participar do show até o fim. Acho que os aplausos são para mim, já que os olhares convergem para onde estou. E eu não sei onde estou.

Obrigado, menino Jesus, por ter nascido e feito seus iguais perceberem a necessidade de haver uma festa em seu nome, para redenção e paz, onde eu seria assado em espeto e saboreado por tantas pessoas felizes, sorridentes e em clima de fraternidade. Jamais imaginei que, sem saber falar, sem ter tido escolhas, seria eu o ponto central dos churrascos de de final de ano de tantas empresas, entidades, famílias e grupos a confraternizar. Aguardei este momento sempre em espaços com arame farpado, tal como a coroa que um dia finalmente lhe puseram na cabeça, e usei argola no nariz para que um filho seu, fiel e devoto, me conduzisse para o lugar certo. Apanhei da vida, mas quem não apanhou? Sempre soube que uma vida de aperto, confinamento, marcação a ferro quente, castração a frio e morte sobre o concreto teriam um sentido maior. Obrigado por dar um norte a minha vida. Hoje, eu sou uma estrela.

Fonte: ANDA

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

EVOLUÇÃO



Ivana Maria França de Negri

o homem da era virtual
ainda não se desvencilhou
do seu lado irracional

são séculos de caminhada
mas ainda não aprendeu a lição

não sabe ser misericordioso,
não tem compaixão

não pensa que o animal
que esfola e mata,
é nosso irmão,
apenas um degrau abaixo

na escala da evolução.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Vivissecção




Pequenos cristos
são imolados todos os dias
Tormento sem fim!
Expostos à crueldade 
pelo "bem" da humanidade

Confinados em laboratórios
nas mãos de seus algozes
são drogados, amputados
cegados, eletrocutados

Ninguém os salva
da triste sina
E nem imagina
sua dor, seu suplício,
seu sofrimento e a falta de amor.

Mas existe a Lei Universal
do "aqui se faz, aqui se paga"
E a toda ação corresponde
uma reação de igual intensidade
E os que fizeram tamanha maldade
sofrerão na carne a mesma dor
Existe Justiça, afinal!

(poema de Ivana Negri)



domingo, 20 de janeiro de 2013

Para a Mãe Terra



"Abençoado seja o Filho da Luz que conhece sua Mãe Terra, pois é ela a doadora da vida.
Saibas que a sua Mãe Terra está em ti e tu estás Nela.
Foi Ela quem te gerou e que te deu a vida E te deu este corpo que um dia tu lhe devolvas.
Saibas que o sangue que corre nas tuas veias Nasceu do sangue da tua Mãe Terra, o sangue Dela cai das nuvens, jorra do ventre Dela borbulha nos riachos das montanhas flui abundantemente nos rios das planícies.
Saibas que o ar que respiras nasce da respiração da tua Mãe Terra, o alento Dela é o azul celeste das alturas do céu e os sussurros das folhas da floresta.
Saibas que a dureza dos teus ossos foi criada dos ossos de tua Mãe Terra.
Saibas que a maciez da tua carne nasceu da carne de tua Mãe Terra.
A luz dos teus olhos, o alcance dos teus ouvidos nasceram das cores e dos sons da tua Mãe Terra que te rodeiam feito às ondas do mar cercando o peixinho.
Como o ar tremelicante sustenta o pássaro, em verdade te digo, tu és um com tua Mãe Terra, ela está em ti e tu estás Nela.
Dela tu nasceste, Nela tu vives e para Ela voltarás.
Segue, portanto, as Suas leis pois teu alento é o alento Dela.
Teu sangue, o sangue Dela. Teus ossos, os ossos Dela. Tua carne, a carne Dela.Teus olhos e teus ouvidos são Dela também.
Aquele que encontra a paz na sua Mãe Terra não morrerá jamais, conhece esta paz na tua mente deseja esta paz ao teu coração realiza esta paz com o teu corpo.”
(Evangelho dos Essênios)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Nossos irmãos em evolução


Daniela Marchi

Pai de bondade e amor, não aguento mais
Salva meus irmãozinhos, os animais
Almas tão puras, inocentes
Vilipendiadas, violadas por mãos humanas
Culpadas e incoerentes

Banho de sangue cruel e inútil
Morte por esporte
Morte por vestir
Coisa de gente fútil

Com tantos vegetais coloridos
Deliciosos
Fartos
Sortidos
Para quê matar para comer
Pobres inocentes, indefesos e desvalidos?

Os que alimentam o paladar viciado
São os mais mansos, prestimosos
A morte é o prêmio que ganham
Depois de servir aos humanos
Sem reclamar e de sua missão tão zelosos

Em falar de missão, a humanidade está esquecida
Que sua tarefa é evoluir
E ajudar seus irmãos a progredir

Não existe mais desculpa para de cadáveres se alimentar
Se Deus fez tudo perfeito
Comida variada, limpa, vinda da terra
Livre de dor e sofrimento
Exatamente o que deve comer o homem da Nova Era

Ao passar por um animalzinho
Seu irmão de evolução
Olhe bem em seus olhos
E verá que tem alma e coração

Paremos então com tanta judiação
Façamos do planeta um lar de paz e harmonia
Um esteio de bênçãos
Para o criador se orgulhar de nós, um dia...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Natal em família ou "A guerra covarde contra os animais"



por Marcio de Almeida Bueno 

Começa então o capotamento coletivo barranco abaixo em direção ao Mortal, digo, Natal. Alguém soprou um apito, tipo guarda de trânsito em proporções mundiais, e as pessoas saem da semiletargia cotidiana para uma agitação que só termina no dia 25 de dezembro, após o meio-dia, com ressaca e muita bagunça na cozinha. Pelo que entendi, uma certa crença religiosa, entre tantas, determina que é dia de celebrar um nascimento, mas – e aí vem o interessante – o rebolado globalizado usa mais outros ícones, mensagens e propósitos. Não importa o calor, tem que haver neve, e o surrealismo segue nos abanando.
Vou pular o clichê do ‘celebrar vida com morte’, combinado? Idem em relação aos sinceros votos de boas festas, direcionados a clientes, vizinhos, colegas de trabalho e demais pessoas a quem se tem velado horror, durante o resto do ano, com sorriso amarelo.
No momento em que uma criança, olhos brilhando na expectativa dos presentes, se vê no meio de uma família que se reúne completa provavelmente somente naquela data, e não pode faltar o peru-leitão-churrasco-’maionésia’-com-ovo-etc, como desfazer o link, anos mais tarde, e propor a não presença deste não-humano não-vivo ali no meio dos avós, tios, madrinha-que-veio-só-para-lhe-ver, pais, irmãos? Seja o não-humano assado, com maçã na boca, enfeite de papel no toco das pernas, ou despedaçado/derretido em forma de matéria-prima para uma culinária que, essa sim, é caprichada para tal importante ocasião. E vai-se cimentando a lembrança boa dos entes queridos reunidos, mastigando aquilo que já citamos acima, rindo fácil pela champagne que corre entre todos, o abrir dos   presentes, o tão sonhado videogame, todo mundo de banho tomado, fotografias protocolares, e às vezes até o cachorro da família participando.
Quer dizer, só o ‘chato’ para depois, na fase adulta da vida, pensar novamente sobre o que seus atos representam, e o quanto eles colidem com o que considera importante, somado a uma leitura aqui, um vídeo que assistiu na Internet acolá, um panfleto que recebeu certa vez de alguém com camiseta preta, e faz-se um novo paradigma. Porque os autômatos aí fora, sonhando em pagar as prestações da caminhonete, ter o cabelo bem liso e um dia ter barriga de tanquinho, apenas abaixam a cabeça frente ao apito cósmico que ouviram, no começo de dezembro. “Eu já comprei os presentes e já dei, para não me incomodar mais”, disse uma velhinha no ônibus, esses dias. Sábia senhora.
Um livro de receitas ‘para o Natal’ é um verdadeiro massacre, e hoje alguns já o folheiam lembrando em quanto aquilo tudo significa em termos de escravidão animal, vida em correntes, separação entre mães e filhotes, confinamento, bretes, aperto, marreta, choque, facas bem afiadas e ‘desenvolvimento do agronegócio’. Mas até mesmo quem se autointitula como alguém que ama os animais se senta a essa mesa-Jogos Mortais. Eu não sento, há anos.
E acordo normal, no dia 25 de dezembro, sem ressaca nem cozinha bagunçada, computando um alívio de 0,000001% na guerra covarde que a humanidade trava contra os animais, e sabendo que não há o que celebrar, mas ainda muito a ser feito.